Cartão Verde, ao vivo, toda segunda, 20h, na TV Cultura
Com Arnaldo Ribeiro, Mauro Cezar Pereira e Oscar Ulisses
Assista:
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Vou fazer o possível para driblar o que se deu em um treino entre o garoto Robinho Junior e o astro Neymar. Entrevero que virou das notícias mais comentadas nos últimos dias. Quero usá-lo apenas como um ponto de partida. Sem entrar nos méritos. Ainda que melhor mesmo seria dizer deméritos. É que mais do que qualquer outra coisa, o episódio a mim serviu para tornar ainda mais evidente o tratamento pouco honroso que o drible vem recebendo no nosso futebol não é de hoje. Que ele seja demonizado quando se dá num jogo à vera, como temos visto acontecer muitas vezes, se não é aceitável, ao menos, se dá em um contexto onde a rivalidade impera, e quase sempre é usada como argumento para justificar destemperos. Mas em um treino? Onde mais um jogador poderia lapidar suas habilidades?
Vestir o drible com esse traje de desrespeito pode explicar a razão para que ele ande sendo coisa tão rara de se ver. O drible é, antes de tudo, requinte. E é bem provável que no altar das coisas sagradas do jogo de bola só ocupe lugar menos nobre do que o gol. Há o lançamento primoroso. A matada de bola certeira. Mas tudo isso transita em outras instâncias. Notem que quase sempre pesa sobre o driblador a pecha de sujeito que gosta de fazer pouco caso do adversário. Enxergam nele um provocador. Mas é a eles que os amantes do jogo mais facilmente se rendem. Não por acaso fazem fama. Ainda que quase sempre tenham sobre si esse quê de hereges. Se pensarmos bem, nesse futebol de hoje tão físico, onde não segurar muito a bola é mandamento, desenhar um lance que favoreça o drible pode beirar a desobediência.
Imagino que muito provavelmente não há castigo maior para um driblador do que se ver vitimado pelo veneno que ele costuma inocular em suas vítimas. A história dá pistas de que esse gesto - que até os dicionários parecem ter certa dificuldade para definir - abriu as portas da realeza para muitos. Mas só os verdadeiramente nobres foram capazes de dispensar ao drible o tratamento devido. Estando eles no papel de executores ou de executados. É famosa a história do primeiro treino que Garrincha fez no Botafogo em junho de 1953. Escalado na ponta-direita pelo técnico Gentil Cardoso, o novato que ainda não tinha completado vinte anos de idade, não tomou conhecimento do lateral esquerdo que estava ali para marcá-lo. O lendário Nilton Santos, jogador da seleção.
No primeiro lance, pra se livrar da tentativa do desarme, Garrincha o driblou pra fora. Nilton Santos, então, teria corrido atrás dele e, uma vez lado a lado, viu o garoto parar bruscamente e lhe aplicar outro drible parecido, mesmo que dessa vez a tentativa de lhe tirar a bola tenha sido mais veemente. E não foi tudo. Apesar de Nilton Santos ter levado a melhor em algumas situações, acabou tomando uma bola entra as pernas. Algo que, dizem, Nilton Santos jamais tinha permitido a ninguém. Depois do treino, os dirigentes do Botafogo, ainda que loucos para fazer o garoto assinar qualquer papel, claro, foram consultar Nilton Santos, que definiu o jovem como um monstro. E afirmou que precisavam contratá-lo. É melhor ele conosco, do que contra nós, sentenciou o lateral-esquerdo, tido como o melhor de todos os tempos. Mas muitos dos entendidos que andei ouvindo nas últimas horas preferem dizer que desavenças do tipo são normais. Vejam, uma coisa é se desentender. Outra, bem diferente, é culpar o drible. O drible não tem culpa.
A maneira que a crônica esportiva tem de tratar o futebol em linhas gerais não costuma primar pelo humanismo. Ainda que o amparo no conhecimento científico esteja mais presente do que nunca. Tão presente que acho que seria prudente que os interessados no tema pudessem entender melhor tudo o que anda balizando os corpos clínicos dos clubes na tentativa de mitigar os danos causados por esforços físicos cada vez maiores. Afinal, quando um jogador deixa de ser escalado sempre fica no ar a impressão de que se tratou de uma escolha e não de uma constatação. Uma vez que, segundo os especialistas, os exames a tudo esclarecem. O que alia lógica e saber científico, coisas que ajudaram a criar o pensamento que nos tirou da idade média e nos levou mais tarde a era moderna.
E talvez resida aí a grande dificuldade para que a interpretação do jogo e de tudo que o envolve se dê de maneira mais humana. Há sobre ele uma crença que impede que o científico se imponha. E isso me faz lembrar uma expressão que, mesmo antiga, está longe de cair em desuso: jogar no sacrifício. E com ela está posta a possibilidade de que se conteste o que os laboratórios permitiram ver. Difícil não aceitar que não é preciso estar fisicamente cem por cento pra jogar. Mas a partir disso tudo fica meio nebuloso. E enveredamos por um caminho onde as bases passam a ser tão abstratas quanto a das religiões. De quem não contesto o nobre papel, mas que me sinto obrigado a dizer que precisaram ser dribladas um tanto para que o humanismo viesse a florescer.
E se digo que o futebol não costuma primar pelo que aquele movimento propunha é porque a crônica esportiva em muitas situações está longe tratar o homem com o cuidado devido. Ainda que o deixe tanto no centro das reflexões que a coisa facilmente acaba descambando pro pessoal e pra fofoca. E as lesões que andam aí frequentando manchetes quase diariamente, que podem tirar o jovem Estevão da próxima Copa, que acabamos de saber impossibilitaram a ida ao mundial do zagueiro Eder Militão, todas elas são retratadas com certa frieza. Em geral, viram notícia no primeiro e nos últimos capítulos. Mas o drama que trazem consigo raramente é lembrado. E a dor tem sido desde sempre companheira de quase todo atleta de alto rendimento.
Imagino que devam estar parecendo eternos os meses que o atacante Paulinho, do Palmeiras, tem sido obrigado a ficar longe dos gramados. E a realidade que o aguarda é conhecida. Quem se recupera não tarda e será cobrado para mostrar em campo que está apto a exibir o vigor dos heróis. O técnico Fernando Diniz, de perfil tão humanista, dias atrás deu uma declaração que vale a pena ser resgatada aqui. Não desacreditou o que vem dos laboratórios, mas afirmou que um atleta não é só músculos e ossos, ao ser questionado sobre o modo como iria gerir o elenco corintiano.
Seja como for, as lesões - que parecem nos assombrar nestes dias - deveriam ser tema mais estudado. Para elucidar o que o futebol tem virado do ponto de visto físico. Para elucidar o tamanho dos danos causados por esses calendários draconianos impostos aos atletas. Realidade que esse momento torna muito evidente. Na última Copa, a França, por causa de lesões, teve seu elenco devastado. Ficou sem vários jogadores. Entre eles Benzema, na época o atual melhor do mundo. Ficou também sem Pogba, sem Kanté. Outros nomes viveram o mesmo. O argentino, Lo Celso. O alemão, Marco Reus. O senegalês, Sadio Mané. Enfim, escolhi o tema por que voltamos a viver esse tempo em que uma lesão se faz imensamente maior do que algo que simplesmente provoca ausências
* Roger Dean (31 de agosto de 1944) é um ilustrador inglês,
notório por seus trabalhos realizados para bandas como Yes
e jogos eletrônicos.
Fosse outra a nossa história quem sabe poderíamos ligar nossas TVs num domingo e dar de cara com um Maracanã lotado inflado pela expectativa de ver e ouvir o trinar do apito e assim testemunhar um Palmeiras e Flamengo que a realidade nos rouba. Não digo de um clássico entre alviverdes e rubro-negro como os que temos visto. E que pelo lugar que os dois times ocupam está longe de ser um jogo qualquer. E digo mesmo sabendo que aos dois não faltam nomes de peso, cuja excelência técnica está bem acima da média nacional. Mas a quimera que meu devaneio desenha tem de um lado Vinicius Júnior e João Gomes. E do outro Estevão e Endrick. Não tenho dúvidas que se tivessem seguido entre nós - eles e todos os talentos que o mercado do futebol nos subtrai - teríamos um outro espetáculo.
Possuiríamos, quem sabe, um caminho para tentar debelar essa falta de brilho que nos ronda, e que me causa desânimo voltar a citar. Fosse nosso futebol um pouco mais razoável poderíamos, ao menos, tentar desafiar um pouco esse modus operandi. Já que com os milhões que os clubes recebem por entregar seus talentos em flor tratam de comprar outros, mais rodados e sem perspectivas de que se traduzam em boas vendas futuras. E há em torno de tudo isso uma glamourização. Os repatriados quase sempre são vendidos aos torcedores como prova do avanço do futebol brasileiro que em outros tempos nem poderia pensar em concorrer com os contratos oferecidos a eles mundo afora. E é fato que o que proponho aqui vai muito além de Palmeiras ou Flamengo.
O Vasco, por exemplo, poderia ser outro se o jovem Rayan, que acaba de se tornar a maior venda da história do clube, ainda vestisse a camisa cruzmaltina. Exemplos não faltam, infelizmente. Lembro bem do meu encantamento com Vitor Roque nos tempos que precederam a venda dele para o Barcelona. Andava jogando demais. E fiquei pensando com meus botões o quanto isso empobrecia nosso futebol. As vendas, aliás, e não só de jovens, podem provavelmente explicar o período um tanto sombrio pelo qual andou passando o Athletico Paranaense.
Mas o torcedor brasileiro se acostumou com essa dilaceração que os cartolas juram com toda a beatitude que é um mal necessário. E assim vamos. Nos últimos cinco anos o Palmeiras se fez o quarto clube no mundo que mais lucrou com a venda de jogadores da base. Negócios que movimentaram um 1,7 bilhão de reais. Interessante ler nas matérias a respeito do tema que brotaram nos últimos dias que esse sucesso se deu por mudanças estruturais que fizeram do clube uma potência exportadora. E, vejam a afirmação do discurso, consolidaram o clube como uma fábrica de talentos, que perdeu apenas das do Chelsea, do Manchester City e do Aston Villa.
Faço essa reflexão acreditando que um esforço no sentido de manter a maior parte desses garotos seria a mais eficaz das fórmulas para fazer do futebol brasileiro algo mais respeitável, mas também tenho dúvidas sobre o nosso jeito de encarar o jogo de bola e seus personagens. Tendo a achar que, no final, ser vendido por milhões acaba sendo decisivo para que o talento e o valor desses meninos sejam reconhecidos, e que se ficassem por aqui talvez acabassem moídos por essa realidade nada justa que costuma reduzir um jogador a herói ou vilão.
Matéria muito interessante escrita por Reinaldo José Lopes, publicada pela Folha de SP dias atrás
Trecho:
Bilhões de judeus, cristãos e muçulmanos em todos os continentes adoram versões da mesma divindade, o Deus único que teria se revelado aos seres humanos há cerca de três milênios.
Reduzir a trajetória dessa figura divina a poucos fatores comuns é inegavelmente temerário, mas as últimas décadas de pesquisa histórica e arqueológica indicam que não erraríamos muito se adotássemos dois slogans para resumi-la: 1) Deus não caiu pronto do céu; 2) Deus nasceu das cinzas da catástrofe.
Link:
Comete-se muitos pecados por causa do dinheiro. Uns bem mais graves do que o que pretendo tratar aqui, devo reconhecer. Falo dessa coisa de dar nome aos estádios, o popular "naming rights". O tema andou frequentando manchetes nos últimos dias em virtude do encerramento do contrato do Palmeiras com a antiga patrocinadora. Lembro que na época da escolha do antigo nome, assim como agora, foram dadas aos torcedores três opções. Ganhou por goleada aquela que preservava pelo menos em parte a nomenclatura popular. A saber, o substantivo Parque. Àquela altura o velho Parque Antártica já não existia. Tinha sido demolido. Restando dele, pelo que me lembro, apenas parte de uma das arquibancadas que descansa escondida nas entranhas da nova edificação.
Nesse caso específico é interessante notar que o nome que havia sido consagrado pelos torcedores carregava o carimbo de uma marca. Nos seus últimos dias o Estádio Palestra Itália estava consagrado como Parque Antártica. Mas essa associação com a marca tinha se diluído com o passar do tempo. Lembro bem a cara de espanto de um interlocutor quando lhe disse que o nome tinha a ver sim com a conhecida marca de cerveja porque o local em que o estádio tinha sido construído pertencia à Companhia Antártica Paulista. Compreensível. Tinha sido há muito tempo. O interlocutor devia ser mais novo do que eu.
Mas como se não bastasse a modernidade ir demolindo quase todos os estádio, tira deles o que resta da identidade. Por gordas cifras teimam em batizá-los com nomes que não deixam de soar sem sentido. E a maior prova de que os estádios nunca foram tratados com a devida importância é o fato de até hoje apenas um deles ter sido reconhecido como Monumento Histórico do Futebol Mundial pela FIFA. O Estádio Centenário, em Montevidéu, no Uruguai, construído para sediar a primeira Copa do Mundo da história. Na certa há outros espalhados pelo mundo que mereciam reverência da mesma ordem.
Vira e mexe me pego pensando se só a exposição das marcas nas Arenas não seria o suficiente para justificar os investimentos. Até porque mesmo os nomes mais bem sacados passam a soar meio cafonas, meio kitsch. Vejam o caso do MorumBis. E o do velho estádio Urbano Caldeira batizado de Vila Viva Sorte. Na Argentina, a reforma de La Bombonera tem dado o que falar. Um dos comunicados feitos pelo clube precisou deixar muito claro que o estádio não está sendo demolido. Que não se trata erguer um novo estádio. Mas que ele está apenas sendo ampliado e que terá a identidade preservada. E a possibilidade de venda dos naming rights tem encontrado forte resistência. Não deve ter sido por acaso que se deu por lá uma das histórias mais lindas nesse sentido. A do San Lorenzo, que depois de muitos anos de luta da torcida recomprou o terreno onde ficava o antigo estádio. Terreno que tinha sido expropriado na época da ditadura militar e vendido a uma rede de supermercados. Será que a estratégia de marketing ficaria mesmo comprometida, por exemplo, se no caso santista a opção tivesse sido por Vila Belmiro Viva Sorte?
Isso tudo me trouxe visões dos estádios que carrego na memória. O do próprio Parque Antártica e seu jardim suspenso. O do campo do Beija-Flor, o mais antigo clube da mais antiga Vila do país, onde ia ver jogos com meu pai. E que até hoje me soa portentoso com a arquibancada em curva. Lugar que mesmo com toda sua simplicidade me fez sentir pela primeira vez o que era a alma de um estádio. As tardes passadas nas tribunas de madeira do Mansueto Pierotti onde via desfilar o São Vicente Atlético Clube. A imensidão que sempre pareceu habitar o Estádio Espanha, do Jabuca, na Caneleira. As dores e alegrias vividas no lendário Ulrico Mursa, desde sempre a casa da Portuguesa Santista, que viverá novo momento glorioso neste sábado, e que dizem os autos, ostenta a primeira arquibancada de cimento construída na América Latina. Quando tudo isso soa desprotegido a usurpação do nome mais parece um golpe de misericórdia.
Neste meio de semana a temporada, enfim, entrou em outro estágio com os torneios continentais fazendo suas rodadas inaugurais da fase de grupos. Não é coisa pra qualquer um. Ainda mais quando o assunto é a Libertadores, esse torneio que os mais velhos viram ser tratado com descaso e que hoje em dia se fez o tal. A ponto de ofuscar a magnitude do Campeonato Brasileiro, e que tem servido de palco para o nosso futebol desfilar sua imponência. Dos últimos dez títulos ficamos com oito. O que já seria de lhe ameaçar a graça, que parece ficar comprometida de vez se atentarmos para o fato de que as últimas oito dessas dez edições terminaram com um time brasileiro campeão. E que cinco dessas oito tiveram como vice uma equipe brasileira também. Mas não nos apequenemos com o olhar frio da racionalidade.
A graça da Libertadores segue viva. Entre nós, pelo menos. E diante disso chega a ser intrigante notar como a realidade muda quando o assunto é a Copa Sul-Americana. Nela, das últimas dez edições os times brasileiros só se deram bem em três. Duas ainda na década passada. E apenas uma nos anos vinte do século que corre. Ainda que equipes brasileiras tenham estado nas finais em outras seis oportunidades. A derrocada do Atlético Mineiro para o Lanús na temporada passada nos fez chegar ao quinto vice seguido. As razões para tamanho disparate certamente turbinariam qualquer roda de papo disposta a decifrar o caso. Os mais místicos talvez digam que os torneios têm almas diferentes. Outros, mais pragmáticos, podem justificar essa diferença se apoiando na própria realidade atual do futebol sul-americano.
A falta de fôlego financeiro dos clubes argentinos para competir com os brasileiros faz deles uma espécie de segunda força, num momento que espelha também a evolução do futebol do Equador e da Colômbia. Das últimas dez Libertadores vencidas por brasileiros quatro tiveram argentinos como vices. Enquanto na Sul-Americana os argentinos ficaram com quatro dos últimos dez títulos, os equatorianos com três e os colombianos com dois. Feitos que não devem ser encarados com surpresa já que nas Eliminatórias recém encerradas para a Copa o Equador foi o segundo colocado, atrás da Argentina, e a Colômbia a terceira. Todos à frente do Brasil, que foi o quinto. E entre eles e nós ficou o Uruguai, que na última década não teve um representante sequer em qualquer das finais sul-americanas.
Mas é bom que o futebol brasileiro e seus homens de negócios não pensem que por essa condição não têm trabalho pela frente. Manter essa hegemonia talvez passe por ter um torneio nacional de padrão muito superior ao atual, onde a vital qualidade do campo de jogo venha a ser apenas um detalhe. Quem esteve atento às convocações da última Data FIFA pôde perceber que elas sugeriram, não que ter um campeonato local respeitável é garantia de triunfos, mas que é um bom amparo. A França - que anda jogando muito - tinha apenas seis de seu vinte seis convocados atuando no país. E esse número teve uma ajuda tremenda do PSG, que lhe deu cinco deles. Mas a Espanha entre os seus vinte e seis tinha vinte deles jogando em casa. Número parecido com o da Alemanha, que tinha dezesseis entre vinte e cinco.
Coloco esses dados aqui por acreditar que seja também uma maneira de forçar a reflexão sobre o modo como o futebol brasileiro se abriu aos estrangeiros. O que pode fazer um campeonato melhor não se traduzir exatamente em uma expansão no horizonte dos jogadores brasileiros. Como disse, não se trata de uma fórmula do sucesso. A Argentina, atual campeã do mundo, tinha apenas cinco entre os vinte e três convocados atuando no país. Já a Inglaterra, que há tempos não ganha nada, chamou trinta e cinco e só cinco atuavam fora. Não me espantaria se daqui há algum tempo os ingleses passassem a ganhar. A questão é olhar o todo e entender que exemplo deve ser seguido. Ser o maioral na Libertadores é ótimo, mas jamais será garantia de uma excelência que nos colocará em outro patamar no mundo da bola.
Hoje tomo a liberdade de dar uma escanteada no futebol, desde sempre tão hegemônico no nosso universo esportivo. Não sem citar que esse desde sempre tem um quê de licença poética, já que só os mais atentos ao desenrolar da história talvez lembrem, ou saibam, que houve sim um tempo em que as páginas esportivas não eram dominadas pelo dito jogo de bola e sim pelo turfe. Isso foi lá nos idos do fim do século dezenove e começo do vinte. Portanto, antes de tantos outros acontecimentos ajudarem a desenhar tudo o que temos testemunhado, dá pra dizer, ao longo do último século. Entre eles o fato de Charles Muller ter tido a bendita ideia de colocar uma bola na bagagem quando certa vez retornava ao Brasil. E vejam vocês como o mundo dá voltas. O futebol veio tomar o lugar justamente de um esporte tão íntimo de apostas. Já dizia um ditado que ouvi pela primeira vez quando garoto: quem tem fama deita na cama. E controlem seus instintos porque cama nesse contexto nada tem de alcova. Era só um jeito direto de dizer que para os famosos tudo costuma se dar mais facilmente. E isso não deixa de ser uma realidade para o futebol brasileiro hoje em dia. Não há como duvidar de quem ele tem mesmo vivido da fama. Lá se vão bem mais de duas décadas sem uma Copa. E arrisco dizer, terá de trabalhar muito para voltar a ser respeitado pelos adversários como foi um dia. Mas seja como for, continuará sendo tratado como uma vedete por tudo o que representa e, mais do que isso, por tudo o que movimenta.
Feita essa introdução vou chegar onde quero. Enquanto o nosso futebol perdia ao brilho vimos outras modalidades evoluírem de maneira espetacular sem jamais gozar de prestígio semelhante. E nem vou citar aqui o fato de termos sido brindados com Gustavo Kuerten tri em Roland Garros porque naquele momento o futebol ainda estava para nos dar um título mundial. O que não me impede de dizer que ter tido um brasileiro como maior tenista do mundo com direito a derrotar lendas como Agassi e Sampras, segue sendo pra mim, se não a mais grandiosa, a mais surpreendente página da história esportiva do nosso país desde o Tri no México. No mais , para embasar o que digo aqui, apelo para outras duas modalidades que pratiquei e quando o fôlego me permite, ainda pratico, e que alcançaram nessa lacuna de tempo uma excelência que o nosso futebol passou a dever. Uma delas é o vôlei, de tanta tradição na cidade de Santos, que tive a felicidade de ver disparar rumo ao apogeu e dominar o mundo de uma maneira que a meninada do clube onde a gente treinava jamais sonhou que veria, naquele tempo em que a União Soviética - de Savin e companhia - parecia estar a anos de luz de nós.
A outra modalidade é o nosso surfe, que também vi se fazer cada vez mais profissional e competitivo e que este ano terá, pela primeira vez na história, um número de atletas maior do que a Austrália. E só quem sabe o que a Austrália significa nesse universo é que terá uma boa noção do que isso representa. Mas de tão à frente dos outros o surfe brasileiro nos oferece hoje muitos outros argumentos para justificar seu protagonismo na cena planetária. Dos onze últimos títulos mundiais oito foram vencidos por brasileiros. Dos últimos cinco ficamos com quatro. O único que perdemos, perdemos para um havaiano, talentosíssimo, e isso também tem lá um grande simbolismo. E teremos na temporada que começou oficialmente ontem, quatro campeões mundiais brigando pelo título. O que jamais tinha acontecido também. Não quero com isso contestar a alcunha do Brasil como país do futebol. Ainda que ela soe cada vez mais abstrata. Só quero jogar um pouco de luz a quem tem feito mais por merecer. E ajudar a tornar evidente que se os brasileiros hoje em dia em matéria de futebol têm tudo para ouvir gracinhas, dentro da água têm tudo para seguir tirando onda.
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| Foto: Equipe do Brasil de Garça/SP |
Teço estas linhas com um fio estranho, cuja matéria prima é de uma pureza que o mundo atual - e muitos dos que ainda seguem montados nele - acharão inapropriada e, por que não dizer, um tanto absurda. Foi-se o tempo em que o futebol era só um jogo. O ventre insaciável do mundo que a tudo traga não tardou em transformá-lo numa mina de ouro para alguns. E isso só foi possível porque para muitos, ou quase todos, ele continuou sendo o que sempre foi. Uma paixão, uma curtição, um modo eficaz de driblar as mazelas cotidianas. Mas como não quero que a ingenuidade contamine a matéria que compõe essa minha reflexão, não vou aqui dizer que o futebol nunca teve dono. Bastou se mostrar rentável para que fizesse nascer barões, oligarcas. Como sempre vimos nesses e em outros campos. Alguns muito populares, venerados, e outros tantos tomados por figuras folclóricas. Símbolos de um arcabouço que até outro dia resistia e dava aos clubes a ilusão de que seguiam sendo de todos.
Clubes que durante anos tentaram nos convencer seriam salvos por refinanciamentos sem fim. Deixando no ar, ao mesmo tempo, uma espécie de absolvição a quem administrou mal, deixou de pagar impostos, de honrar contrapartidas. E como, ao contrário das jazidas que podem ter fim, os veios que exploram seguem fartos, era preciso encontrar uma saída para seguir viabilizando esse negócio vital que alimenta um segmento colossal. Mas um negócio que se visto por suas planilhas contábeis se revela financeiramente inviável, incapaz de seduzir mesmo o mais desavisado dos investidores. Diante dessa realidade aterradora, que mal poderia haver em aceitar que um clube de futebol passasse a ter dono?
E dane-se que os clubes tenham nascido com ideais tão cheios de virtude, tão cheios de boa intenção, tão cheios de vontade de servir, de fazer do esporte um instrumento social. Clubes geridos por Conselhos, sem remuneração. Sugerindo a paixão como seu grande motor. Escrevo isso porque me parece muito óbvio que neste momento em que o Palmeiras se faz o único dos mais tradicionais times paulistas capaz de desafiar o que o tempo impôs, os outros, apequenados por tantos descaminhos, abalados por dívidas, andam fatalmente enxergando a redenção nessa fórmula recém elaborada. Fórmula que, antes de qualquer outra coisa, se faz prova cabal da incapacidade dos clubes, e de todos aqueles que se encarregaram deles até aqui.
Mas, sem que notem ou queiram notar, salvar o modelo que soa ultrapassado seria salvar um jeito de pensar o futebol, de lhe honrar a alma. Mas ninguém está preocupado com isso. Importa é que a roda siga girando. E aqui está a matéria prima que tece o fio destas linhas, uma sonhada resistência. Pois as SAFs, dito de maneira bruta, transformam os torcedores todos em torcedores de margarina. Faz cair sobre os clubes um quê de produto, desses que podem estar em gôndolas de supermercado. Uma mercadoria que a qualquer hora pode trocar de mãos. E reduz o torcedor a mero consumidor. Gostaria de acreditar na capacidade dos Conselhos Deliberativos. Na lição de presidentes eleitos de maneira teoricamente democrática. Mas não é fácil crer nessa fórmula se ao longo do tempo os Conselhos, os presidentes, mesmo tendo a chave dos cofres, acabaram nos trazendo até esta realidade lamentável em que a maior parte dos clubes se encontra. Virar SAF pode até ser a única saída, só não acho que será a salvação.

Foto: Gilvan de Souza/Flamengo
Eu não faço ideia de como anda a reputação do treinador que cuida do seu time. Mas é fato que eles cavaram um lugar de destaque na história do jogo de bola. Não sei dizer se isso se deu desde sempre. É comum ouvir por aí que a história recente é que fez deles celebridades. Que não deveriam ter todo esse cartaz. Acho que nem tanto ao céu, nem tanto à terra. Imagino que ao treinador seja reservado um papel que se não o coloca na mira dos holofotes, não faz dele alguém que deva ter a discrição de um árbitro, de quem se diz que os melhores são aqueles que passam despercebidos na peleja. Ainda que os desse tipo pareçam uma raça em extinção.
Talvez nem por culpa deles, mas de tantas atribuições que lhe foram dadas. Passar spray no local da falta e da barreira, sob pena de ser ludibriado pelos espertalhões, jogar a moeda do cara ou coroa pra cima, sem esquecer da propaganda, dizendo que naquele momento cara significa televisão e coroa máquina de lavar. Saber a exata hora de ignorar, ou não, os chamados vindos da cabine do VAR. Olhando assim, a impressão que tenho é de que ao menos a vida dos treinadores desde o princípio não foi tão modificada. Muito pelo contrário.
O tempo ao invés de exigir mais lhes deu regalias. Uma comissão que só inflou com o passar dos anos. Deixando -lhes à disposição, muitas vezes, dois auxiliares. Sem contar um sem fim de especialistas que lhe passam a segurança de que seus comandados estão se alimentando como devem, números que elucidam o quanto esse ou aquele andam correndo pelo time. E até informações científicas que, em última análise, podem até lhes blindar contra o popular migué. E por estas bandas nem precisam ter um currículo de encher os olhos para passar a ganhar cifrar de encher os bolsos.
Mas se o futebol nunca esteve perto de ser uma ciência exata, analisar treinadores muito menos. Nos últimos dias vários deles geraram um sem fim de manchetes. Os demitidos Hernán Crespo e Filipe Luís, agora ex-Flamengo. O recém contratado, Leonardo Jardim, agora rubro-negro. O que levou à derrocada dos dois primeiros foi se esclarecendo com o passar do tempo. E deixou nas entrelinhas o que não deveria ser novidade pra ninguém: Interesses se chocam e pessoas também. Que Filipe se revelou um vitorioso está claro. Agora se com o estrelado elenco que tinha outros seriam capazes de fazer o mesmo ou mais, nunca saberemos.
Seja como for lá se foi Filipe Luís e sua mentalidade europeia. Era assim que muitos o enalteciam. Seja isso lá o que for. Talvez só um complexo terceiro mundista. Leonardo, o que chegou, obteve a quase consagração dirigindo o Cruzeiro. De tão incensado me deixou com a impressão de já estar entre nós há um bom par de anos. Nada. Foi anunciado pelo time mineiro no início da temporada passada, em fevereiro. De cara acabou eliminado na semifinal do Campeonato Mineiro, esse mesmo que ia fritando o Tite, que lhe ocupou o lugar. Em geral, na maior parte das vezes, o salário que o futebol
brasileiro tem pago a certos treinadores parece maior do que o que eles oferecem. Uma temporada a mais nos permitirá saber melhor do que é capaz Leonardo Jardim. Se jurou amor incondicional ao Cruzeiro. Se disse que não queria trabalhar muito anos por aqui por causa das distâncias colossais, pouco importa. Só os idiotas não se contradizem, diria Nelson Rodrigues.
Não se deixe levar pelo tom pouco sério que o título pode sugerir. O escolhi com a intenção de deixar cair sobre o elegido o véu de certa descontração. E também por acreditar que é assim que gente de tal envergadura é tratada no popular, quando, de repente, o nome do tal surge numa conversa de bar. Não que a descontração combine com ele. Não se trata de um nobre, no que diz respeito a títulos e afins, mas é impossível negar-lhe importância. E se acabei seduzido por este homem foi também porque, de certa forma, ele me permite falar de futebol seguindo uma mesma linha, já que na semana passada o assunto aqui foi o futebol brasileiro, e este personagem me dá a chance agora de um olhar sobre o jogo de bola mas com pretensão mundial. O que esclarece também porque afirmei que a aparição do sujeito em conversas de bar não deve causar surpresa.
Nasceu na era dele, por exemplo, essa coisa de Copa com quarenta e oito seleções, em várias cidades e, como não tarda veremos, até em três continentes. E isso, convenhamos, é coisa que o torcedor tem bons motivos pra cornetar na roda com os amigos. Onde já se viu, não é? Bom, ainda não se viu , mas não demora o homem nos fará testemunhar essa invencionice. E se hoje sabemos muito bem de quem se trata é porque na semana passada ele comemorou uma década no cargo importante que ocupa. E que fez dele alguém que todo mundo que tenha a mínima intimidade com o mundo do futebol conhece. è o cartola-mor. E espero que esta maneira pouco formal de tratá-lo não seja vista como falta de respeito. Se a uso é para reforçar a linguagem descontraída que me esforço aqui para lapidar desde que o título me veio à cabeça.
Mas pra não perder o fio da meada e justificar a razão de ter citado a oportunidade de manter uma linha no tema, é porque se no artigo anterior desta folha disse que pouco pensamos o futebol brasileiro, pensamos muito menos o papel do futebol no mundo. E a biografia recente desse figurão é um bom recorte para tornar claro como o jogo de bola anda sendo cuidado. Ou usado. Tenho dúvidas sobre o termo mais apropriado neste caso. Suíço italiano, de pai nascido na Calábria e a mãe na Lombardia, frequentou manchetes na semana passada em virtude dos dez anos completados onde foi apresentado como alguém que expandiu competições e aproximou a principal entidade do futebol mundial de disputas geopolíticas.
Fato é que andou forçando tanto a tabelinha com a política que acabou investigado pelo Comitê Olímpico Internacional, do qual faz parte também, sob suspeita de violar as regras de neutralidade da entidade. Se viu absolvido defendendo que não fazia mais do que cumprir seu papel ao fomentar esforços de reconstrução em lugares como a Faixa de Gaza. A investigação tinha se dado a partir da presença dele, em Washington, na reunião inaugural do Conselho de Paz, criado por Donald Trump. Esse mesmo que anda colocando o mundo em pé de guerra. O problema desse tipo de parceria, de tabelinha, é precisar uma hora mandar a bola para outro lado.
E não dá pra deixar de citar aqui o fato desse figurão ter sido visto vestindo boné dos USA com inscrições notadamente políticas, o que nos instiga a perguntar que tipo de neutralidade é essa que se tenta preservar. Que o futebol possa e deva ser usado para defender grandes causas é coisa que não se discute. Mas defender o fim da proibição da Rússia em competições internacionais decretada depois da invasão à Ucrânia, como ele fez recentemente, parece não levar em conta, entre outros fatores, a pressão que o futebol pode fazer a favor da tão falada e abstrata paz. Mas quem sou eu para dizer como o futebol deve ser tratado no âmbito global. Só me causa preocupação um figurão desse dando a impressão de já não poder se negar a vestir um boné sob pena de começar uma guerra. Talvez seja o caso de perguntar a Gianni Infantino o que ele acha.
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| Foto: Fluminense |
Nos dias atuais em que gols de falta e dribles rareiam é preciso que o torcedor encontre algo em que se amparar. De misérias já chegam essas a que o mundo nos condena para além - ou aquém - das cifras que guardamos nos bolsos ou nos cofres. Não dá pra residir nesse deserto sem crer que ainda há escondido em algum lugar um oásis para matar essa nossa sede de grande lances sobre os gramados, muitos deles já deixando transparecer aquela morbidez que costuma rondar as samambaias de plástico nos consultórios. Nesse reino do futebol desde sempre tão fértil para superstições, parece estar pra nascer mandiga capaz de fazer ressuscitar o encanto que um dia cercou o jogo.
A penitência é tamanha que começo a desconfiar que tudo não passa de ilusão. Que teimamos em alimentar essa esperança só porque o tempo foi editando tudo, livrando do desaparecimento fragmentos que mereciam perdurar. O gol iluminado de Falcão certa tarde no Beira-Rio, os dribles de Garrincha, os lances singulares encenados por Pelé, Zico cobrando uma falta com impiedosa precisão. Peço desculpas aos que, mais vividos do que eu, tenham sido testemunhas oculares de que esse futebol dos sonhos um dia foi possível, que existiu. A esses peço que sejam indulgentes. Talvez isso aqui não passe de lamento de um desiludido.
Pensando bem, é possível que tudo isso seja fruto do tempo que me foi dado viver. Nem aquele em que o futebol se revelava fascinante, nem esse outro de agora no qual a beleza nele não passa de um vestígio. Insisto nessa versão porque não consigo ignorar que o presente muitas vezes se revela mais pesado do que o passado, de quem ousamos guardar só aquilo que nos interessa. E mais pesado também do que o futuro que, sabemos, moldamos a nosso bel prazer, por mais que as evidências sugiram de modo gritante que não tardará o momento em que passaremos a não ter mais direito a um.
Mas quero crer que nada estará totalmente perdido se continuarmos a ter um camisa dez por perto. A gente acredita em cada coisa. É fato, no entanto, que a essa altura do campeonato já não parece justo depositar sobre as costas deles este fardo. No fundo, preciso confessar: o que vai aqui é uma reverência a eles. Que se não irão nos salvar da pasmaceira, poderão nos deixar com a sensação de que nem tudo está perdido, que ainda há uma trincheira com uns pouco gatos pingados tentando debelar abstrato inimigo. Elegi o tema levado pela leitura de uma matéria que apontava quais eram os camisas dez nos quais deveríamos ficar de olho nesta temporada.
Paulo Henrique Ganso estava lá. Acaba de completar 300 jogos pelo Fluminense. O mais clássico dos que temos à disposição. É por causa de caras com a visão de jogo dele que sigo acreditando que se um camisa dez não seria exatamente a salvação poderia funcionar, no mínimo, como um agradável paliativo. Menphis também estava listado. Mas dele me recuso a falar. Nunca tive a ilusão de ser perfeito, ainda que tenha sido acusado por vezes de tentar. Sou do tipo que não engole alguém vestir a camisa dez por contrato. Em outros eu acho que é muita areia pro caminhãozinho. Caso de Gustavo Scarpa, do Atlético Mineiro. E isso nada tem a ver com considerá-lo um mau jogador. É refinado até, mas a dez pra mim exige mais do que refinamento.
Não sei é um jeito de se portar. De conseguir tratar o jogo de maneira muito original. Como um chef que ao fazer um prato trivial o faz notadamente melhor do que todo mundo. Se encaixa no modelo pra mim mais o futebol de Everton Ribeiro do que o do Scarpa. Refinamento que não consigo enxergar em Luciano, do São Paulo, que talvez tenha alcançado a honra pelo conjunto da obra e pela insistência em se irmanar com a torcida tricolor do que propriamente pelo futebol. No meu entendimento nasceu para ser um nove, ainda que falso, se é que me faço entender. Enfim, atualmente só uma coisa além de um camisa dez de fina estirpe me faz crer que o futebol possa ter salvação, os canhotos. Mas dessa crença falamos outra hora.
O tema não é novo. Há tempos os torneios estaduais minguaram. E, por mais que possa parecer, a razão de sua teimosa sobrevivência não está na tradição, está nas cifras que sustentam. O que vale, principalmente, para o Campeonato Paulista. De longe o mais abastado entre seus semelhantes. Talvez o tema se faça um tanto sem sentido para os mais novos, que já os conheceram despidos de trajes nobres. A coisa mudou tanto que chego a ter a impressão de que hoje em dia um título estadual
não teria apelo suficiente para livrar verdadeiramente um time grande da sensação de jejum e de toda cobrança que se dá na ausência de triunfos.
Foi-se o tempo em que um Estadual cumpria o papel que cumpriu a edição paulista de 1977 quando o Corinthians ao bater a Ponte Preta levou a fiel torcida até o céu que o jogo de bola sempre promete. Com direito a suspensão das aulas e outras tantas alterações no cotidiano só possíveis quando esse tipo de caneco era cultuado pra valer. Nem seria preciso recuar tanto no tempo para explicitar o que a história fez com eles. As duas finais entre Palmeiras e Corinthians no início dos anos noventa, lembro bem, ainda tinham aura nobre, provocavam uma mobilização considerável. Mas sou obrigado a reconhecer que àquela altura a rivalidade entre os dois, é bem possível, já cumpria sem que se percebesse o papel de turbinar importâncias.

Final 1995 - Foto: Ricardo Correa -Placar
E essa decadência, tão evidente, este ano ganhou outra dimensão. Não bastasse a diminuição das datas reservadas a eles, o ajuste do calendário que adiantou o início do Brasileirão o condenou de vez à sombra. Sou capaz de entender as razões. Não sou um lunático disposto a bradar contra os times mistos, os times poupados, os times de base no lugar do profissional. Nada disso. Apenas acho que isso tudo abriu um precedente e, amparados nele, muitos resolveram jogar contra os estaduais também. A CBF que, quando viu a bola pingando na área com a necessidade de mexer no calendário em ano de Copa, não pensou duas vezes para lhes tomar algumas datas, já que isso viria a servir por tabela para minar e mandar recado a quem tinha se revelado oposição.
Mas, na minha opinião, o golpe que parece ter levado os estaduais às cordas, em especial o outrora chamado Paulistão, é uma mescla que une a inoperância dos dirigentes ao comodismo dos treinadores. Ao menos é essa a impressão que tive ao acompanhar alguns jogos neste início de temporada. Pra mim é visível a falta de interesse de muitos times para jogar essas partidas. E aí é claro que falo de times que têm horizontes que vão além das fronteiras estaduais. Ainda que para alguns essa condição seja discutível. São muitos os momentos em que fica claro que a vitória deixou de ser prioridade. Se pensa nela até, mas sem estar disposto a correr riscos, a agredir o adversário.
E o resultado desse tipo de escolha sabemos todos é um jogo no estilo "tico-tico" no fubá que não tem tamanho. Entenderia totalmente o torcedor que se levantasse da arquibancada, dando às costas ao time, gritando que lhe avisassem quando estivessem a fim de jogar bola, pois aí quem sabe decidisse voltar. Como afirmei acima, entendo muitas questões, mas as propostas, as ideias de jogo que se apresentam, beiram a covardia. Num tempo em que os entendidos afirmam que a ciência nos deixa saber exatamente quantos minutos um atleta pode atuar, a ausência de intensidade não se justifica. Conclui-se que quem foi a campo estava apto ao embate. Ou, os elencos no início da temporada são mesmo um mar de atletas meia bomba. O Flamengo anda reforçando essa tese.