quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Os nobres do futebol brasileiro



Para além do fato de fazer valer o investimento seria muito bom que o Palmeiras fosse mesmo lapidando pra valer o futebol que anda jogando. Mas não há como derrotar o pragmatismo de quem rebate esse argumento dizendo que se vierem os títulos basta.  Não tenho a menor dúvida. Ocorre que jogar um bom futebol continua sendo um antídoto muito apropriado para possíveis insucessos.  E já que é para tratar as coisas de modo pragmático é bom que se diga que o time de Abel já passou da hora de equilibrar as coisas com seu maior rival, que anda por aí ostentando a marra de quem se fez atual campeão brasileiro e da Libertadores. E na mesma temporada. O que nunca foi pouca coisa. E algo que o Palmeiras jamais conseguiu. 

Não sou do tipo que costuma fazer pouco caso de vice-campeonatos. Mas é preciso admitir que chega uma hora em que eles já não resolvem. E é justamente esse o momento que o Palmeiras atravessa. E se tem conseguido lidar bem com as situações e ir toureando as cobranças é também porque teve lá seus méritos. Um bicampeonato da Libertadores é algo gigante, mas glória da qual, aos poucos, o tempo vai tirando o viço. Seja lá como o Palmeiras venha a viver os últimos capítulos desta temporada acho que Abel deveria ser mantido até o final dela. E assim dar cara ao que pode pode vir a ser glória ou ocaso. Caí neste tema porque não é de hoje que ando incomodado com o fato de na maior parte das vezes acabar obrigado, pelo que se dá, a tingir esse nosso encontro com ares de crítica. 

Sei que é o que a realidade pede, mas andei imaginando que cairia bem forçar uma mudança de tom.  Assim me coloquei à procura de um recorte que, de alguma forma, versasse sobre o que nosso futebol tem de bom. E já faz um tempo que sua melhor versão encontra tradução em Palmeiras e Flamengo, ou vice-versa. Ainda que sejamos obrigados a reconhecer que muitas vezes mais pelo poderio econômico do que exatamente pelos tratos dados à bola. E nessa renhida disputa não estar mais na Copa do Brasil pode não ter sido uma tragédia, mas que os rubro-negros gostariam de não ter dado aos palmeirenses essa chance de vira e mexe serem lembrados, como quem não quer nada, que o time alviverde, apesar de tudo, segue vivo nas três frentes, isso gostariam. 

Aos palmeirenses um velado desconforto reside no fato de o rival ser visto, não é de hoje, como dono de um futebol mais capaz de encantar. Que aproveite o embalo do bom jogo de ontem contra o Santos. Equilibrar essa questão talvez fosse, veladamente também, uma maneira de minar um pouco a confiança do rival.  Porque o futebol pode ter mudado muito, pode ter virado de cabeça pra baixo, mas estar diante de um time de futebol respeitável, brilhante, jamais deixará de causar alguma intimidação. Coisa bem diferente de ficar a frente a frente com uma equipe vencedora, mas que tem na capacidade de competir seu viés mais louvável. 

Que Abel e seus comandados não creiam, por outro lado, que a Copa do Brasil venha a servir de tábua de salvação. Já serviu. Nos dias que correm tem tudo pra não fazer efeito. Será preciso no mínimo adornar a história palmeirense com um novo Brasileirão ou com uma nova Libertadores. Enquanto com o Flamengo a realidade tem tudo pra ser mais benevolente. Num arroubo de complacência, e a depender de como a história venha a se desenhar, o torcedor rubro-negro talvez seja até capaz - depois da bronca - de absolver o time, o clube, se acabar vice nas duas frentes. E não se trata, de modo algum, de usar dois pesos, duas medidas. É uma condição que o Flamengo conquistou por ter sido mais vencedor e ter jogado mais nos últimos tempos. Mas, como gostam de lembrar os entendidos, as conquistas perdem efeito rápido. E títulos precisam sempre ser alimentados com títulos.  

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Futebol: Quanto mais você conhece...



Toda vez que o futebol nos revela uma de suas faces bizarras, e são muitas, costumo sacar uma velha frase que a vida me fez cunhar sobre o jogo de bola que, acredito eu,  resume bem a realidade que o cerca. A frase é: Futebol, quanto mais você conhece mais difícil fica de gostar. Os que convivem mais comigo já a escutaram muitas vezes. Fiz dela um antídoto para os momentos em que essa dita paixão nos envergonha, nos obriga a pensar o quanto nossa razão precisa ser posta de lado para conseguir seguir enxergando o futebol como algo encantador e divertido. Nos últimos dias vimos as ofensas racistas novamente encenadas em arquibancadas argentinas onde a reincidência daria margem a uma punição dessas exemplares que os homens que cuidam do futebol, pelo visto, nunca têm o interesse em praticar. Muito pelo contrário. 

A tática, em geral, estamos cansados de saber, quando tomam alguma atitude nesse sentido, é para pouco depois tratar de ir abrandando a pena. Transformando punições em multas. Ou acabam tomando outros caminhos tão manjados quanto. E depois de tudo o que temos visto há aí um protocolo estabelecido que começa com o gesto feito pelo árbitro apontando a situação e que, em seu desdobramento maior, retira os times de campo. Com certeza não vamos resolver a questão parando partidas por uns míseros minutos e solicitando para um jogador do time da casa ir até a beira do campo pedir que a cambada na arquibancada maneire. Algo na linha do que se deu no jogo de ida do Corinthians contra o Rosário Central, na Argentina. 

A sequência do roteiro tomou seu caminho protocolar. Com a Conmebol abrindo investigação para apurar o corrido. E estar na arquibancada sempre foi um jeito eficaz de se fazer íntimo do futebol, de conhecê-lo. E por isso arrisco dizer que mesmo com todo o avanço em matéria de comportamento - que a onda do politicamente correto veio decretar - a vivência nesse ambiente é prodiga em nos fazer desgostar do jogo. Como é um tremendo desgosto dar de cara com os números divulgados no Fórum Brasileiro de Segurança Pública de São Paulo, segundo os quais em dias de jogos as ameaças e agressões contra as mulheres chegam a crescer quase trinta por cento. Segundo os resultados os dias que registram os maiores aumentos são as segundas, sextas e domingos. E que os registros de lesão corporal sobem mais nos dois dias do final de semana. 

Mas o que achei ainda mais estarrecedor foi o aumento dos registros do tipo em mulheres na faixa dos quinze aos vinte e nove anos que nesse recorte chega a quarenta e quatro por cento.  Era de se esperar que a onda do politicamente correto ajudasse, no mínimo, a estancar o crescimento desse tipo de violência, mas em comparação ao estudo feito anteriormente os números cresceram. E, pasmem, houve também uma inversão com os registros de violência física superando os de ameaça. Imaginar o futebol como catalisador desse tipo de comportamento é profundamente triste. O estudo recomenda ações envolvendo clubes, Federações e torcidas para mitigar a violência contra a mulher. Decidir pela melhor estratégia pode até gerar dúvidas, só não dá pra duvidar de que o futebol insiste em fazer valer a velha máxima de que quanto mais o conhecemos mais difícil fica de gostar.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Que critério é esse?



Nada de justiça. As conversas sobre o jogo de bola clamam mesmo é por critério. Faz tempo que essa invocação é feita como se pudesse nos livrar dos males causados por arbitragens que, na falta dele, acabam condenadas da maneira mais veemente. Por definição, critério é um padrão usado como base para fazer uma avaliação, um julgamento, uma comparação. O último caso vem bem a calhar porque nas muitas tentativas que andamos fazendo para tentar livrar a cara de um árbitro, ou na maior parte das vezes condená-lo, é daí que partimos. Mas alcançar um padrão não é algo simples.  E a coisa descamba de vez, alterando ânimos, quando fica evidente que talvez nem um mesmo árbitro consiga ter um padrão. Em outras palavras, critério. 

O que me faz crer que atingir essa uniformidade venha a ser algo tão complexo quanto chegar à iluminação que tanto norteia a aspiração dos budistas. Um dos hábitos muito notados é o de comparar esse lance com aquele. O que, em geral, acaba servindo como ponto de partida para contestar a decisão apresentada, já que em cada um desses momentos a decisão tomada diante deles foi diferente. Mas como o viés filosófico baixou de vez por aqui vou tentar ampliar o horizonte do que está proposto. Portanto, vos digo: encontrar dois lances exatamente iguais - em tese - me parece tão desafiador quanto encontrar duas pessoas exatamente iguais. Coisa que nem mesmo os gêmeos conseguem ser. Um lance pode ser parecido muitas vezes com um outro, mas tudo o que o cerca provavelmente fará dele algo singular.  

E no fundo disso tudo está algo mais alarmante, a suspeita de que ninguém mais sabe o que viria a ser esse critério. Aproveito e deixo aqui a minha confissão de que me sinto numa infinidade de momentos parte desse time. E, digo mais, nem mesmo os boleiros, que deveriam exibir notável conhecimento a respeito da questão, se mostram competentes pra isso. Muito pelo contrário. Vejam o caso que se deu no jogo entre Grêmio e Mirassol dias atrás, quando o time do interior paulista jogando na casa gremista teve um gol anulado que poderia ter mudado tudo. Quando dei de cara com a cena de imediato discordei da decisão do árbitro. Pra dizer a verdade a considerei quase absurda. Eis que depois do jogo o personagem que protagonizou o lance que levou à anulação do tento disse com todas as letras que a bola tinha mesmo resvalado no braço dele. O que a meu ver nem constituiria culpa porque estava junto ao corpo, coisa que os entendidos vivem dizendo que justifica a absolvição. 

Mas em seguida o jogador do Mirassol objetou que discordava da decisão porque se o mesmo lance tivesse se dado no meio de campo teria sido interpretado de outro jeito. E eu me peguei a pensar em todas as  variantes advindas de casos assim. Sem contar que não consegui deixar de ponderar que esperar que lances que se dão dentro da área, ou bem longe dela, sejam vistos exatamente da mesma forma não faz muito sentido. A veia filosófica me faz crer que a urgência que cada um embute e o evidente efeito que cada um pode ter quase os levam pra lados totalmente opostos. Se você chegou até aqui pensando que eu vos brindaria com uma alguma solução, peço perdão por desapontá-lo. Não sou mágico. Mas não vou perder a oportunidade de dizer que estou convencido de que em outros tempos, quando tudo o que tínhamos eram nossos olhos e uns poucos recursos técnicos para tentar entender o todo, esse tal critério parecia algo mais factível.    

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

A regra do capitão



Tudo é uma questão de educação. Foi assim que um amigo certa vez praticamente acabou com uma acalorada conversa a respeito do comportamento dos jogadores em campo. No fundo grande parte do que nos incomoda no mundo externo é uma questão de educação se pensarmos bem. Desde o cidadão que teima em nos fazer ouvir a música que ele escolheu. Passando pelo sujeito que simplesmente ignora o semáforo em vermelho. O que anda na contramão. O que sai pra passear com o pet deixando na calçada os vestígios do passeio. Há um sem fim de exemplos. Mas vamos tratar da boleirada. Bastaram aí umas poucas rodadas pra eu perceber o quanto fui ingênuo ao pensar que a Copa, com suas novas regras, pudesse de algum modo trazer avanços. Mas a impressão que tenho é de que a coisa se acentuou. 

E nem tô falando da manjada simulação que é coisa de dar nos nervos. O que estamos vendo parece beirar o caos total. Chegamos ao ponto em que um lance qualquer tem servido de pretexto para que se cerque o árbitro. Muitas vezes de dedo em riste. Obrigando o tal a escutar outras versões do ocorrido. Todas elas muito duvidosas obviamente. Sou levado a crer que o avanço desse tipo de atitude está ligado ao comportamento de dirigentes que, de uns tempos pra cá, perderam totalmente a postura. Já não pensam duas vezes pra fazer acusações, talvez encantados pela notoriedade que essas bravatas costumam lhes conferir. O que acaba por encorajar os jogadores a seguirem caminho parecido usando os recursos que têm. 

Fato é que a coisa anda beirando o insuportável, a ponto de dar a impressão de ameaçar colocar por terra o pouco encanto que ainda resta do nosso futebol que, um dia, encantou o mundo. Pode soar apocalíptico, e é. Não se enganem.  Já disse aqui, e volto a repetir: a principal arma para combater essa questão continua sendo a arbitragem, na figura dos árbitros. Ainda que eles precisem do amparo de uma autoridade que já nem sei se o futebol brasileiro tem. Imagino que o preço a pagar seria alto. Expulsões logo de cara. Desde sempre um tabu no jogo de bola. Uma farta distribuição de cartões para quem ousasse se exaltar. E outras atitudes que num primeiro momento poderiam soar extremadas mas que no curto prazo poderiam nos levar a uma melhora de comportamento que se faz urgente. E talvez fosse o caso também de colocar essa boleirada, que sempre achou que não tem nada pra aprender, em salas de aula. 

O aprendizado deixaria clara a realidade mais dura que passariam a encontrar em campo na figura dos árbitros, mas também serviria para fazê-los perceber o quanto isso, em última instância, poderia trabalhar a favor de todos. Fato é que nossa memória é mesmo muita curta. Faz pouco mais de dois anos, foi pouco antes dos jogos de Paris, a FIFA instituiu a chamada regra do capitão. Ou seja, apenas os capitães dos times poderiam  se aproximar e falar com os árbitros. E, detalhe, isso nos momentos em que eles fossem tomar decisões importantes. Nada de uma falta na lateral da intermediária ou coisa parecida. Pois bem, isso tinha se dado em julho. No mês seguinte, em agosto, a CBF, dizendo seguir as diretrizes da entidade-mor - cujo presidente atual neste momento vale um artigo - distribuiu um comunicado oficial aos clubes brasileiros dizendo que a partir daquele momento seria estabelecida a tolerância zero para jogadores que pressionassem ou cercassem o árbitro. Só mesmo rindo, pra não chorar. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

E não me venham falar em favoritos

Patrick Smith -FIFA 


Não sei bem o que nos espera no próximo domingo. No outro... já sei bem. E ando me preparando pra ele. O ofício exige. E lá, quando o mês de julho estiver mais ou menos aos quarenta do segundo tempo, nos restará torcer pra que o futebol brasileiro mantenha minimamente a temperatura.  Não sei como cada um de vocês chega neste último capítulo da Copa. Preparem-se. Teremos o líder Palmeiras recebendo o Atlético Mineiro. O Flamengo - sete pontos  atrás lembram? - de encontro marcado com o São Paulo no Maraca. E não adianta lamentar porque é o que teremos para o momento.

Confesso a vocês que levei um bom tempo pensando na possibilidade de França e Argentina decidirem a Copa em duas edições seguidas. Era difícilo enxergar esse detalhe como requinte. Afinal, se tratava de coisa que nunca tinha sido vista. Esse Mundial bombadão  talvez tenha nos entregado mais do que esperávamos. Fazendo nascer um sem fim de marcas, muitas delas discutíveis, mas ainda assim alardeadas com entusiasmo desmedido. Digo isso porque se certas seleções chegaram pela primeira vez à fase eliminatória foi em razão da sanha desmedida por lucros. O que, figurativamente, trouxe a linha de chegada pra algum lugar um pouco mais perto de quem competia. 

Devemos nos render é a outras, mais legítimas. Como a que fez de Lionel Messi o maior artilheiro de todos os tempos em Copas do Mundo. Convenhamos, não é coisa que se vê a toda hora. Ainda que Mbappé com todo seu talento juventude e horizonte pra outra Copa soe como promessa de fazer a marca do camisa dez argentino das mais breves do tipo em toda a história também.  A anterior, do alemão Miroslav Klose, foi soberana por doze anos. Mas... a França se foi nos fazendo testemunhar um capítulo que soou esquisito, não fosse uma notável Espanha a responsável por decretar o fim daquela trajetória que muitos imaginavam fadada ao sucesso. Ver esse time francês condenado a ouvir gritos de olé foi algo totalmente fora da curva. E há, creio, uma lição nessa despedida que revelou o primeiro finalista. E que vai muito além de incensar o time espanhol apontando para o talento óbvio de um Lamine Yamal. 

A lição que fica é a de que o futebol moderno, muitas vezes traduzido pelos entendidos com conceitos recém fundados, não deve deixar de valorizar  aspectos tidos como clássicos. A capacidade refinada de trocar passes. A necessidade de uma identidade. Coisa que outro dia, se não estou enganado, ouvi um certo professor muito respeitado dizer que não era exatamente o que buscava. A valorização do conjunto, que sempre alonga os pequenos espaços e favorece o tipo de movimentação que costuma gerar uma oferta abundante de opções de passe. E quando isso se dá... o melhor é não estar na pele do adversário. 

E por falar em adversário a Espanha que se cuide, porque a Argentina chegará no domingo pra lá de vitaminada por uma vitória sobre os ingleses que escancarou o quanto os comandados de Scaloni têm de coragem e de tarimba. E nem vou falar de Messi que seria chover no molhado. Mais do que a patente de atual campeã mundial a Argentina é um time cascudo. Ainda ouço aqui as palavras ditas por Harry Kane depois. Tentamos segurar o jogo e nesse nível isso não basta. Acho que o temperamental treinador inglês, que é alemão, ao pensar pequeno condenou a nação mais íntima do futebol a deixar escapar uma chance que ela esperava há muito tempo. E não me venham falar em favorito quando uma seleção que acaba de mostrar que lida muito bem com adversidades encontra uma outra que tá cansada de mostrar que se recusa a mudar de estilo mesmo diante da maior das dificuldades.  

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Confissões de um amador

 


Sabe, não é do meu feitio dar traço tão pessoal a esse nosso encontro. Vira e mexe tenho umas recaídas, reconheço. Mas é que há nesse meu fazer um traço de terapia, visto que estas linhas insistentemente traçadas por vezes fazem com que o bendito que as crava no papel se conheça um tanto melhor. E isso para o bem e para o mal. Mas dessa vez é a Copa que aí está que me fez tomar esse caminho. Enfim, preciso confessar minha tendência ao amadorismo. Só pode ser isso. Não vejo outra maneira de explicar. Sei que há tanta gente que dedicou a vida a decifrar esquemas. A se fazer bom nesse ou naquele jeito de jogar. Senhores que são vistos como doutores nessa arte, as construindo ou as interpretando. Gente que, às vezes, mesmo perdendo de sete a um não abandona aquele jeitão seguro e segue olhando os que não lhe adulam com ar de descaso e, mais do que tudo, de impaciência. 


E estou convencido disso mesmo que alguém da patente de um Ancelotti tenha se definido como um sujeito que não é nem cem por cento tonto, nem cem por cento gênio. Mesmo assim, continuo a achar que nem passa pela cabeça de qualquer um deles aceitar esse meu modo de ver o futebol. Ainda que no caso do italiano, depois de ter visto o que vi, eu seja levado a crer que a parte da afirmação que versa sobre não se tratar de um gênio soe mais precisa. Mas pode ser só um efeito colateral das escolhas dele que parecem ter contribuído para semear uma certa depressão futebolística em muitos dos meus amigos. E não se impacientem, vocês vão logo entender onde quero chegar. 


É que ao ver partidas como vi a Colômbia e o México fazerem, acabo convencido de que uma dose considerável da mais pura entrega talvez nos fizesse viver algumas alegrias e, a partir delas, sabe como é, poderíamos ganhar confiança e aí o céu seria o limite, ou por um infortúnio qualquer talvez o limite viesse a ser a França de Mbappé e sua turma. E que turma.! Mas seria um final digno. Não haveria do que reclamar. Acho que nos termos atuais a isso se dá o nome de intensidade. Pois toda vez que dou de cara com uma peleja descrita pelo narrador como de altíssima intensidade está lá um time desses que - como diz meu tio Afonso, sabedor das coisas - coloca o coração na ponta da chuteira. Um time para o qual não há bola perdida, que não deixa o adversário respirar, que dá um jeito de ter pulmão pra maior parte do tempo ir marcar o outro time lá no campo dele. 


Tudo bem ! O México e a Colômbia ficaram pelo caminho, mas com a postura de quem sabe que tem um nome a zelar. Sem contar que encontraram pelo caminho um time inglês e um Suíço que não se furtaram a encarar o jogo da mesma forma. A Colômbia me empolgou de tal modo que já imaginava vê-la diante dos atuais campeões do mundo. E imaginava que se mostrasse em campo a disposição que tinha tido diante de Portugal nada me tirava da cabeça que daria aos seus torcedores, mesmo eliminada como acabou sendo, um tipo de dor da qual eles poderiam quase se orgulhar. 


Olha, não que eu ache que nossos jogadores sejam incapazes de tomar pra si tal tarefa. São dados a fazer coisas mais difíceis.  Brilhar na Premier League, serem artilheiros por lá. Serem vistos como estrelas pelas quais muitos se mostram dispostos a pagar dezenas e dezenas de milhões de euros. Vocês não fazem ideia de como essa minha crença num certo amadorismo me maltrata. Não entrem nessa, acho que deve ser bem menos sofrido se sentir um tanto derrotado achando que o talento de Casemiro, Paquetá, Raphinha e Neymar uma hora dessas iria nos fazer novamente campeões do mundo. 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Um atalho pro caneco



A Copa, não tenho dúvida, e já disse, serve pra colocar certas coisas no lugar. No meio dela só uma coisa me assombra: a volta à realidade do futebol brasileiro. Temor que lembro bem ter cultivado em momentos similares de outrora. Não bastasse a qualidade duvidosa de muitos jogos, tem a arbitragem. O VAR. Mas não quero minar a diversão de ninguém. Por falar nele, todo reconhecimento ao que conseguiu o Paraguai, que pelo jogo que fez na estreia me deu a impressão de nem estar muito a fim de encarar o Mundial. Ou de não ter entendido o que ele significava. Digo isso porque o gol anulado feito pelo zagueiro alemão Jonathan Tah, que bem poderia ter classificado a Alemanha, soou como um erro que, pensando bem, atentou contra os alemães e contra quem ainda insiste, uma vez estando em campo, em jogar bola e não se ocupar de não deixar que outros joguem. Juro que não vi a falta no goleiro que embasou a anulação.

Sei que a onda agora é conseguir parar a remada forte dos noruegueses, mas antes de versar sobre os nórdicos gostaria de falar sobre os orientais que dias atrás estiveram no nosso caminho. E aí volto ao mote do início. Porque se a vitória diante do Japão nos mostrou que em matéria de bola ainda temos alguns recursos que soam raros para certos adversários, eles por outro lado, se bem observados, podem nos ensinar muito. Achei o máximo ficar sabendo que o projeto para o futebol japonês prevê a conquista de uma Copa até o ano de 2050. A paciência é uma virtude imensa. E isso, o planejamento, e não o resultado em si, deveria virar um mandamento para os dirigentes brasileiros que torraram praticamente todo o último ciclo entre uma Copa e outra pensando no próprio umbigo e contratando treinadores como quem só quer tirar uma batata quente da mão. Condenando a torcida brasileira neste momento a torcer para que o medalhão Carlo Ancelotti com toda a sua estrada se faça o guru que nos guiará por algum atalho que leve até o mais cobiçado dos canecos. 

Dirão os entusiasmados que esse revirar o passado está sendo feito fora de hora. Coisa tão difícil de saber que no Equador - e no Paraguai posteriormente- acabaram decretando feriado depois de um jogo. Entendo que políticos não possam jamais deixar uma bola pingando na área. Se a moda pega os franceses talvez não voltem a trabalhar. Não sei , algo me diz que esses Presidentes sul-americanos se fossem centroavantes, temo, acabariam acusados de ter perdido totalmente o tempo de bola.  Ainda acho que pra nação feriados fazem mais sentido em dias de jogos e não depois deles. E, além do mais, anda meio na cara que foi-se o tempo em que a política era farta de craques. A maldição dos perebas nesse campo me dá a impressão de ser uma epidemia mundial. 

Mas voltando aqui pra nossa casinha, seja qual for o desfecho do encontro que o Brasil tem marcado com os noruegueses em vindouro domingo, é bom não esquecer que triunfos do tipo,ainda mais os que acabam nos deixando com a taça na mão, sempre tiveram o poder de sugerir de maneira convincente de que a partir dali nada mais seria como antes. Mas não tarda e os nossos meninos bons de bola continuam se despendido de suas paragens, os dirigentes se distraem com seus afazeres, ou tentando se livrar de algum pecado e o futebol brasileiro volta a procurar o caminho que perdeu. E que fazia dele algo respeitável, belo, raro, recriando a mágica que dava à camisa amarela um peso mais difícil para os outros suportarem do que pra quem a veste. Tudo enquanto os japoneses com seus passos estudados, sua determinação e sua devoção pelo coletivo vão caminhando sem retroceder, e assim quem sabe acabem chegando em 2050 bem antes de nós.   

sexta-feira, 26 de junho de 2026

FOTOGRAFIA : A Seleção dança !

                                         



                                        A melhor foto que vi da Seleção na Copa até agora.







 

quinta-feira, 25 de junho de 2026

A coisa vai mudando


Foto: Hannah Peters -FIFA


Tenho sérias dúvidas sobre a nossa capacidade de interpretar uma partida de futebol sem ser contaminado pelo que o placar determina. Coisa que os bem intencionados desde sempre trataram de nos recomendar. E, de certa forma, a tarefa parece tomar uma dimensão ainda mais desafiadora quando o jogo em questão é de Copa do Mundo, um torneio curto que dá a todo encontro um ar de tudo ou nada.. O que também pode, por vias tortas, forçar o acerto analítico. Papo meio maluco eu sei.  E isso me veio à cabeça depois de ter testemunhado o segundo capítulo escrito por Ancelotti e seus ungidos no Mundial, mas não apenas ele. Tendo em vista a dificuldade imposta pelo bom time marroquino e a fragilidade notória dos haitianos a análise pode se embaralhar um pouco. 

Não estou dizendo aqui que o Brasil começou bem. Ao contrário. Um minuto antes de Vinicius Júnior fazer o gol de empate contra o Marrocos o Brasil estava totalmente perdido em campo. E o adversário tinha se feito respeitar. Ouvi muita gente antes da estreia dizendo que o empate nem seria um mal resultado. E se pensarmos bem, com o ciclo que o Brasil teve, com o treinador que lá está, tendo chegado um tanto em cima da hora, pensar na vitória como algo muito provável deixava trair certa soberba. Fato é que o apito final soou e vieram duras críticas, para as quais o empate diante de uma seleção respeitável esteve longe de servir de paliativo. Deu-se então o segundo capítulo, revelando um outro placar. E forçando um outro olhar. 

Diante dele, ou melhor, depois dele, o meu modo de encarar Matheus Cunha mudou. Passou a ser imperativo  reconhecer todo o serviço prestado por ele, que na estreia tinha perdido o lugar. Cunha desenhou uma longa trajetória no futebol europeu e com o Manchester United vive, muito provavelmente, o melhor momento da carreira. E mais, tanto anda sendo dito a respeito de Casemiro, se deveria ou não ser titular. Pois que Ancelotti decida. Mas me parece visível que na principal proposta de jogo do italiano Matheus Cunha desempenha papel importantíssimo. Impressão que se reforçou no jogo contra a Escócia. Outro caso meio nessa mesma linha é o de Vinicius Júnior. 

O caminho até aqui ajudou a colocá-lo no lugar que ele verdadeiramente ocupa, não só na Seleção, mas no futebol brasileiro. Neymar pode até voltar a brilhar, fazer o que soa um tanto impossível, mas neste momento o grande nome do futebol brasileiro é Vinicius Júnior.  Inclusive pela postura que sempre teve, desafiadora. Um verdadeiro protagonista, muitas vezes reduzido e contestado injustamente, porque é o cara que joga mais no clube do que na Seleção. Mas, por favor,  a realidade da Seleção é outra. E isso joga contra todos, não só contra ele, que dá a impressão de estar tomando consciência de que neste momento, queiram, ou não, é o grande nome do time brasileiro. 

Quanto a Neymar, seja qual for a dimensão que vier a ter no final dessa história, deverá ter consciência de que poucos na longa trajetória  do nosso futebol foram tão amparados. O mercado o amparou. A mídia, em grande parte, o amparou. Os companheiros de Seleção nem se fala. Isso por mais que seja difícil acreditar que um jogador que tinha jogado a última partida pela Seleção no distante ano de 2023, que voltou a treinar pra valer no último domingo, possa estar verdadeiramente apto a ser competitivo em um jogo de Copa do Mundo. Neste momento acredito mais na confiança que o escrete brasileiro vai tomando do que em uma suposta evolução. Fato mesmo é que a partir do jogo de ontem à noite contra a Escócia qualquer erro, ou equívoco, poderá se revelar fatal.  

quinta-feira, 18 de junho de 2026

O que a Copa me mostrou



Em meio a tantos conteúdos relativos à Copa e ao futebol com os quais fui bombardeado nos últimos dias um me tocou em especial. Tratava-se um trecho de depoimento dado por Zagallo ao Museu da Pessoa. Nele o campeão do mundo relembrava circunstâncias que cercaram a final da Copa de 1958, a primeira vencida pelo Brasil. E o fez com nobreza, para destacar a postura que tiveram os suecos a respeito do jogo decisivo. O Brasil, todo mundo sabia, não gostava de jogar na chuva, lhe fazia mal. A água jogava contra o talento, impedia a bola de pé em pé. E antes da decisão choveu muito. Choveu na quinta, choveu na sexta, choveu no sábado. Domingo, dia da decisão, não. A chuva tinha parado. O velho Lobo ao falar deixava vislumbrar em seu rosto a certeza de uma lembrança que parecia ter o frescor de algo vivido no dia anterior. Pudera. E os suecos, que fariam a final com o Brasil, sabiam muito bem o que a chuva significa para o time adversário. Mas o que fizeram eles? Mandaram cobrir o gramado. Protegê-lo em nome do espetáculo. Sem dar a mínima para o proveito que poderiam tirar da situação. O fim da história todo mundo sabe. O time brasileiro impôs a eles um cinco a dois e os suecos nunca mais voltaram a disputar o título. 

Resgato essa passagem porque acredito que se tem um coisa para a qual essa Copa que aí está pode nos servir é para nos jogar na cara o quanto a postura dos homens molda o futebol.  Logo de cara tivemos em campo, no jogo de abertura, um árbitro brasileiro. Justo quando a arbitragem por tudo o que andamos vivendo por aqui deixa no ar a impressão de que ela é o pior que o futebol brasileiro tem a oferecer. E quero passar longe de qualquer veredito a respeito da atuação de Wilton Pereira Sampaio. Mas quero tomar partido e dizer que não concordo nenhum um pouco com o que ouvi sendo dito por aí. Que ele lá não apitou como apita aqui. Tenho dúvidas de que poderia, uma vez que o respeito ao árbitro, as atitudes em campo, o peso de cada jogo, a exposição planetária, redundam em realidade totalmente distinta. 

Sem contar que os árbitros que lá estão passaram a ter recursos que até então não tinham. Regras para evitar que o jogo se transforme em enrolação. E um amparo tecnológico ampliado, que a arbitragem da partida entre Estados Unidos e Paraguai me deixou com a impressão de ter usado com maestria. Quis o destino que fosse nessa partida que eu desse de cara pela primeira vez com um jogador a esbravejar com o árbitro. E esse alguém era o o zagueiro Gustavo Gomes, cujo comportamento conhecemos bem. Mas, foi um lance na linha de fundo que me fez perceber que nosso futebol aqui pode ser ajudado. Foi quando o VAR, com toda a discrição necessária, avisou o árbitro de campo, o holandês Danny Makelie, que ele tinha sido iludido. Tinha sido vítima de uma dessas encenações bizarras, feita pelo paraguaio Almirón. Encenação que tinha feito o zagueiro do time norte-americano, Ream, levar o cartão amarelo. 

Constatada a malandragem o cartão foi imediatamente invertido. E o meio campista paraguaio vai poder contar para os netos um dia que foi o primeiro esperto a passar a vergonha de ser flagrado pelo VAR cometendo um ato do tipo em uma Copa do Mundo. A correção só foi possível porque havia um cartão amarelo dado.  Mas acho que tá mais do que na hora de não fazer coisas dessa natureza depender de situação alguma. Constatado o flagrante o meliante deveria ser punido, fosse qual fosse o contexto. Do jeito que está posta a mudança creio que já será de grande valia na realidade absurda criada pelos jogadores brasileiros. Fará quem sabe evoluirmos um tanto, mas deixo uma sugestão. Podendo o flagrante ser dado a qualquer momento, sem ter redundado em cartão, tenho certeza de que faria nosso jogo andar um meio século para a frente. Não me iludo. Sei que isso é só o começo, que os homens do apito a partir de agora irão cada vez mais dar de cara com jogos que para serem devidamente domados exigirão deles cada vez mais. E que a qualquer momento um espertalhão, ou um esquentadinho, pode fazer a Copa tomar ares de Libertadores. Por isso deixo um "viva" pra quem ainda trata o futebol com a nobreza devida.    

sexta-feira, 12 de junho de 2026

O preço da maior Copa de todas



Sabemos todos que a última não foi uma quinta-feira qualquer. A abertura da Copa pode não ser daqueles momentos que altera drasticamente agendas, esvaziando escritórios, lotando bares, tornando a chegada em casa uma corrida contra o relógio. Mas se coloca na ordem do dia. No mínimo se intrometendo no cotidiano de muitos. Mesmo antes de a bola rolar as atenções se voltaram para o estádio Azteca que se já tinha ar de nobre, a partir de ontem ganhou ainda mais, ao se transformar no único lugar do planeta a servir de cenário para o evento em três oportunidades. Mas há um sem fim de detalhes que já vivemos por aqui e que passarão despercebidos. Os gastos astronômicos que se escondem por trás da festa. 

No caso do México falam num total de 41 bilhões de reais investidos. Isso para ter três sedes e não uma Copa toda pra chamar de sua. Serão breves onze jogos na pouco expressiva fase de grupos e apenas dois quando o evento chegar ao mata-mata. Pra se ter uma ideia, segundo a apuração do Tribunal de Contas da União, o gasto do Brasil que sediou uma Copa inteira em 2014 foi de 25 bilhões. A reta final de preparação por lá evidenciou, como sempre, que as obras de mobilidade não andaram na velocidade que tinham de andar. Tudo muito previsível. 

E muitos dos que têm bons motivos pra protestar contra o governo local não perderam a oportunidade. Uma semana antes da abertura os professores mexicanos em greve nacional, bloquearam ruas, entraram em confronto com a polícia, derrubaram símbolos ligados ao Mundial e ameaçaram fechar aeroportos. Tão batido quanto ver professores nesta situação são as reivindicações que fazem. Salários defasados, mudanças no sistema de aposentadoria. Perdoem o contraponto ao momento festivo. Mas isso tudo serve para elucidar as manobras de quem verdadeiramente lucra com o evento. 

A Copa de 2026  expandida para quarenta e oito seleções e três países está quebrando todos os recordes financeiros e, leio aqui, já se tornou o maior motor econômico da história do futebol mundial.  A competição projeta uma geração de 80 bilhões de dólares, cerca de 400 bilhões de reais, em produção bruta global. Seja lá o que isso quer dizer. O que por tabela torna muito claro porque a próxima será disputada em seis países e três continentes. Esse gigantismo todo me faz pensar quanto não lucrarão os sites de apostas ao redor do mundo. E se não estamos fadados a um dia vermos o mundo inteiro envolvido com a Copa. Assim pelo menos as Seleções poderiam economizar jogando cada uma na sua casa, ou tornando as disputas regionalizadas. Isso geraria economia, um impacto menor na emissões de carbono. Mas ninguém vai querer jogar contra algo que vem dando tão certo. Ainda que a gente saiba que as emissões de carbono da edição que está pra começar, segundo especialistas, irão muito além das emitidas nas edições de 2018 e de 2022. 

Mas talvez a FIFA esteja tão antenada com tudo que por isso até já anunciou a troca da empresa que há décadas produz os álbuns e as figurinhas oficiais que, descobri dias atrás, usa um tipo de silicone no verso das mesmas que contamina o processo de reciclagem padrão. E por isso se jogado no lixo comum - ou misturado com a coleta seletiva - fatalmente irá parar em aterros sanitários onde precisará de cem anos pra se decompor. O que a essa altura não tem o menor cabimento. Não quero com esses detalhes todos minar a diversão de ninguém. Mas como jornalista fui doutrinado a olhar sempre para os dois lados. E a conclusão que chego com toda a minha rabugice é que é preciso sempre questionar.  Por exemplo, qual será realmente o preço a pagar por essa Copa que nos vendem como a maior de todos os tempos?

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Driblando a excelência



Em um primeiro momento a afirmação de que o futebol faz pouco caso da excelência técnica pode soar leviana. O que o leva a esse caminho pouco nobre é que é a grande questão. Há um sem fim de acontecimentos que deixam isso claro. Dois muito recentes podem ser tomados como exemplo. A demissão do técnico Hernán Crespo, quando o São Paulo dava a impressão de estar vivendo um momento promissor. E a troca de Filipe Luís pelo português Leonardo Jardim no comando do Flamengo. No caso rubro-negro contribuiu para dar ares mais surreais ao ocorrido o fato de o Flamengo pouco antes ter construído uma goleada de oito a zero sobre o Madureira, que pode não ser um adversário intimidador mas mesmo um leigo no assunto teria noção de que um placar dessa envergadura não se constrói sem um resquício que seja de excelência. 

Talvez esse discurso venha a soar meio sem pé nem cabeça pra muitos, já que vivemos em um país que fez popular aquele ditado que diz: manda quem pode, obedece quem tem juízo. Quase um mantra. Sem querer brigar com a realidade, ou por em dúvida o viés cruel do poder, diria que o ideal é que quem manda tenha juízo, já que ele é a faculdade de bem julgar e avaliar. Coisa que tanto no caso tricolor, quanto no do time carioca, o tempo vai sugerindo que não foi o que se deu.  Que quem manda tenha suas preferências também é algo a ser considerado. Mas diria que quanto mais importante o cargo mais ele exige que as preferências sejam deixadas de lado em nome da instituição. Tudo exige um momento certo, até impor vontades. Incompatibilidade de gênios nesses casos terá sempre um quê de canelada. 

E pra mim foi esse o caminho que tomou também o italiano Carlo Ancelotti ao incluir Neymar entre seus vinte e seis preferidos. E essa não é uma reflexão sobre o jogador. É uma reflexão sobre escolhas, sobre o que priorizar. Argumentos temos de todos os tipos. Quem já não ouviu entendidos por aí professarem que goleiro é uma posição de confiança do treinador.  Que o sujeito é bom de grupo. Que fulano melhora o futebol dos outros. Mas eu vos pergunto: e a excelência técnica tão primordial para grandes conquistas que lugar ocupa nesse universo cada vez mais mercadologicamente desenhado? O certo desapontamento que venho alimentando a respeito do treinador da Seleção se alimenta muito disso. Imaginava que uma das diferenças que notaríamos no trabalho de um profissional acostumado a lidar com jogadores de tão alto nível seria uma exigência descomunal com relação à excelência técnica e física.  Talvez o tempo nos mostre que ter um estrangeiro a comandar o time não muda realmente tudo. 

E isso é um ponto de vista que não se restringe a ter, ou não ter, Neymar no grupo. Pois a convocação, de uma maneira geral, trouxe outros nomes que sugerem que  essas excelências não são exatamente prioridades. Ou que elas em última análise podem ser compensadas com uma boa dose de vivência, de experiência. Só assim para aceitar sem questionamento certos nomes que figuraram na dita lista também. Talvez o talento em estado bruto, com toda a mística que o cercou desde sempre, fosse o único argumento aceitável em alguns casos, mas um sujeito pragmático como eu sempre vai achar que o talento nunca se apresenta  despido de uma considerável dose excelência física e técnica. E que é melhor encarar um amistoso de despedida mais como uma festa do que como um oráculo.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Um grande personagem

 


Talvez ele seja o maior personagem  da história recente  do futebol. E lógico que faço a afirmação sem esquecer de figuras que certamente seguirão sendo lembradas por muito tempo e que até poderiam rivalizar com o sujeito que irei fazer tema central destas linhas. Mas, por hora, esqueça Messi, Cristiano Ronaldo. Vamos tratar de alguém cuja contribuição soa estar muito além do talento. Envolve postura, representação, vanguarda. Pep Guardiola está por trás de boa parte dos times que nos últimos anos andaram encantando os apaixonados por futebol.  Lembro bem do que me perguntei muitas vezes em segredo ao vê-lo aceitar o desafio de treinar um time na Premier League. E o que me perguntava era: será que o cara vai mesmo conseguir triunfar na Liga reconhecida como a de maior excelência no mundo?  E aí é preciso lembrar a posição modesta que o Manchester City ocupava na ocasião apesar da dinheirama que já o cercava. 

Seja como for, o cara não deixou dúvida a respeito. Ao anunciar a saída do clube no fim da semana passada tinha no currículo nada menos do que seis títulos do campeonato inglês. Divididos de maneira nobre. Um bi e um tetra campeonato. Neste meio tempo saiu da condição de homem que pensou e comandou um Barcelona que parecia nascido de um sonho pra se ver em dado momento cobrado por torcedores como se fosse um comum. E se a imagem dele como um treinador consagrado na principal Liga do planeta não deveria nos surpreender, vê-lo em determinado momento, bater boca com um torcedor que lhe cobrava pela fase questionável  que o clube dele atravessava foi algo que considerava, confesso, pouco provável. O imaginava acima das coisas mundanas que costumam cercar o jogo de bola. Inocentemente imaginei que estaria pra nascer torcedor capaz de, quase olho no olho, cornetar Guardiola. A cornetagem, como a ignorância, não tem limites, mas a paciência de um treinador tem. 

E, para além de como ele andou tratando e pensando o futebol, gostei de ver um Guardiola já consagrado dizer quando saiu do Barcelona que iria se impor um ano sabático. Algo que parece pouco complexo de se executar mas que costuma ser raro, porque treinadores demitidos e com boa reputação costumam se recolocar no mercado de trabalho de modo a dar inveja até aos mais bem preparados executivos que existem por aí. Mas fazer dinheiro não era o caso. Como ainda não parece ser. Poderia ter ficado no City, tinha ainda um ano de contrato. Mas se foi dizendo estar ciente da necessidade que o ofício impõe de vencer. Sabe que se passou dez anos no clube em que estava foi porque se sagrou campeão vinte vezes. Do contrário, disse Guardiola com todas as letras, teria sido demitido. Tenho curiosidade de saber como, a partir de agora, esse catalão irá encaminhar a carreira. O que será que ainda pode desafiá-lo? Em matéria de futebol, o que será que lhe falta?  

Guardiola não esconde que quer dirigir uma seleção. E isso me lembra, como talvez queiram lembrar alguns, que nem sempre Guardiola acertou. Prova disso é ter dito tempos atrás que o técnico da Seleção Brasileira seria sempre um brasileiro. Ancelotti aí está colocando por terra a teoria defendida por Pep naquele instante. Não digo que a CBF tenha errado ao renovar o contrato com o italiano, mas parece claro, por tudo que Guardiola andou dizendo, que essa tal assinatura borra uma possibilidade que poderia fazer bem ao nosso futebol. Três anos atrás, apontado como o principal pilar do Manchester City, Guardiola disse com todas as letras que não tinha inventado o futebol, que o jogo pertencia aos jogadores. Que não inventou é fato, como parece ser fato também que o fez soar de maneira singular.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Ancelotti em versão brasileira



Eis que podemos, enfim, nos sentir banhados por ares futuros. Uma vez que a grande questão que parecia cercar o futebol brasileiro ficou para trás. Aos que podem ser driblados por meias palavras, que não fiquem dúvidas: sabemos agora que Neymar está entre os vinte e seis preferidos de Carlo Ancelotti, que inevitavelmente nos últimos dias andou frequentando manchetes com uma assiduidade só comparável a dos tempos em que ele próprio se fez a grande questão. Vocês devem lembrar 
que eu brincava com os amigos de ofício dizendo que só acreditaria na contratação quando visse o italiano vestindo o agasalho da Seleção com seus infinitos patrocínios dando treino na Granja Comary.  E pensar que nos dias que virão isso será coisa abundante. Trivial mesmo. 

Mas agora que o treinador já soa tão nosso , que confessa andar disfarçado nas caminhadas que faz pela orla carioca, que já sentiu a vibe dos camarotes chiques do carnaval, e não digo só do  carnaval simplesmente porque acho que vai uma distância aí entre uma coisa e outra, agora eu gostaria de saber como ele viu o modo como a crônica esportiva tratou o principal nome do futebol brasileiro nos últimos tempos. Pode ter achado exagerada toda a importância dada a uma questão a que ele desde o começo emprestou tons pragmáticos, dizendo que podia ser resolvida com uma fria análise até mais física do que técnica, mas que nos momentos finais admitiu não ser uma decisão tão simples. 

Sou capaz de levar em consideração que Ancelotti tenha maturidade e poder suficientes para não se deixar influenciar. Ainda que a decisão dê a impressão de ter ido no sentido contrário. Só não sou capaz de acreditar que ele possa ter ficado indiferente ao burburinho em que o tema se transformou.  Uma celeuma que soou desproporcional e destemperada mesmo em se tratando de um jogador que se fez em dado momento a mais cara transação da história do futebol. Com humildade admito que Carlo Ancelotti tem recursos infinitamente maiores do que os meus - e da maioria absoluta dos que se pronunciaram - para decidir o caso. A dúvida que pode paira agora sobre ele é a que paira não é de hoje sobre o futebol. Até que ponto os interesses podem ter peso maior do que o talento, do que a capacidade de jogar bola, em momentos como esse que aguardamos com tamanha expectativa. 

Fato é que a página está virada e Ancelotti deve desfrutar da melhor forma possível a condição de alguém que chegou com grande amparo. Pode parecer distante de ter desenhado um time até este momento capaz de inspirar confiança. Mas já ficou claro que se há um descontentamento com ele, nasce da maneira meio tacanha que alguns ditos professores têm de encarar o futebol. Como é fato que diante da falta de brilho que temos visto em mais de duas décadas, e que o último ciclo parece ter tornado tão evidente, uma certa descrença no título é inevitável. A mesma descrença que, se acabar em taça, batizará Ancelotti menos como um milagreiro e mais como um profissional de cuja excelência não se deve duvidar. E se isso vier a acontecer as escolhas soarão certas como só um triunfo dessa ordem sabe fazer. E que Neymar, a quem o futebol deu muito, faça por merecer.   

sexta-feira, 15 de maio de 2026

O mito corintiano



Desde que assumiu o comando do Corinthians o técnico Fernando Diniz tem claramente optado pelo que eu chamaria de uma gestão passional. Num primeiro momento isso pode parecer não fazer muito sentido já que o treinador ao longo de toda sua carreira demonstrou ser um profissional com esse perfil, sempre emotivo. Tudo muito afinado com sua formação.  Sua condição de psicólogo. Mas no Corinthians, tenho a impressão, tudo tomou um outro tamanho. Não por acaso. A história pessoal dele legitima o discurso. O faz forte. Já ouvi até quem tenha dito que tanta ênfase poderia dificultar possíveis idas futuras a outros times da capital. 

Mas se há uma coisa que se deve reconhecer em Diniz é a coragem. Muitos treinadores por aí já foram chamados de convictos, no bom e no mau sentido, mas poucos, muito poucos, de tantos que temos acompanhado, agiram dando a impressão de não ter a mínima preocupação de manter o emprego. O jogo desse mineiro sempre foi outro. Fé cega no jeito de interpretar o jogo e a vida. E isso explica certamente porque as emoções que desperta em geral estão nos extremos. E acabam por emprestar algum sentido a essa coisa já meio batida de ser, ou não ser, Dinizista. Desde a primeira coletiva dada na condição de técnico do Timão, Diniz ressaltou seu mais de meio século vivendo na zona leste paulistana, reino corintiano. fato de morar no bairro do Tatuapé. E talvez isso me soe tão cheio de sentido porque lá também tenho raízes. Nasci na maternidade Cristo Rei que, outro dia me disseram, nem existe mais. 

Não discuto a estratégia. Mas quero confessar que ela tem me feito pensar muito sobre o mito de ser corintiano. Um mito , como se sabe, é uma narrativa que explica certos aspectos culturais de um povo. Aqui, no caso, leia-se torcida. E em certo sentido o enredo da última partida do time na Libertadores, com um gol livrando o time da derrota nos acréscimos, foi creditado a esse mito corintiano. Quem sou eu para negar.  Mas vou achar sempre prudente lembrar que comungo de certo ateísmo ludopédico, que me faz entender que as conquistas sempre exigirão que se jogue um pouco de bola. E digo isso porque não faz muito tempo ouvi um amigo pregar que essa coisa de ter garra e tal não é exclusividade de ninguém. Observação difícil de contestar num primeiro momento.

 Mas como me dou o direito de ter também certas crenças confesso certa dificuldade em não reconhecer nos corintianos, se não a raça sem igual, a fé. Que atire a primeira pedra aquele que, amando, jamais sofreu pelo time que torce. Portanto, sofredores todos somos. O que enxergo é esse  traço. Em outros tempos muito comentado, mas que ultimamente não vejo tão em evidência assim, falo da tal fé corintiana.  A velha alcunha de fiel torcida. E sei que ela deve andar sendo testada por todos os pecados que têm transformado um dos clubes mais populares do país em um verdadeiro caso de polícia. É óbvio que a fé também jamais será exclusividade de ninguém. 

O amigo Oscar Ulisses, observador sagaz das coisas que se dão em campo, alimenta a teoria de que o corintiano, mais do que qualquer outro torcedor se importa é com a vitória. Não interessa que ela venha no último centésimo, ou seja fruto de um futebol que não se dá ao respeito de ser chamado de elogiável. Quem sabe não seja possível explicar isso por uma capacidade de fé fora da curva. Pois diante de um desfecho do tipo só um fiel pode se achar verdadeiramente atendido. E, cá entre nós, só com muita fé pra acreditar que dá pra ser campeão da libertadores, ou que ainda não é tempo de começar a levar o Brasileirão a sério. Seja como for, Diniz deixou claro que pra qualquer missão com o alvinegro faz questão de relacionar o mito. 

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Hoje tem !


                                          Cartão Verde, ao vivo, toda segunda, 20h, na TV Cultura

                                       Com Arnaldo Ribeiro, Mauro Cezar Pereira e Oscar Ulisses

                                      

                                              Assista:                                       

                                             Cartão Verde - Youtube

quinta-feira, 7 de maio de 2026

O drible não tem culpa



Vou fazer o possível para driblar o que se deu em um treino entre o garoto Robinho Junior e o astro Neymar. Entrevero que virou das notícias mais comentadas nos últimos dias. Quero usá-lo apenas como um ponto de partida. Sem entrar nos méritos. Ainda que melhor mesmo seria dizer deméritos. É que mais do que qualquer outra coisa, o episódio a mim serviu para tornar ainda mais evidente o tratamento  pouco honroso que o drible vem recebendo no nosso futebol não é de hoje. Que ele seja demonizado quando se dá num jogo à vera, como temos visto acontecer muitas vezes, se não é aceitável, ao menos, se dá em um contexto onde a rivalidade impera, e quase sempre é usada como argumento para justificar destemperos. Mas em um treino? Onde mais um jogador poderia lapidar suas habilidades? 

Vestir o drible com esse traje de desrespeito pode explicar a razão para que ele ande sendo coisa tão rara de se ver. O drible é, antes de tudo, requinte. E é bem provável que no altar das coisas sagradas do jogo de bola só ocupe lugar menos nobre do que o gol. Há o lançamento primoroso. A matada de bola certeira. Mas tudo isso transita em outras instâncias. Notem que quase sempre pesa sobre o driblador a pecha de sujeito que gosta de fazer pouco caso do adversário. Enxergam nele um provocador. Mas é a eles que os amantes do jogo mais facilmente se rendem. Não por acaso fazem fama. Ainda que quase sempre tenham sobre si esse quê de hereges. Se pensarmos bem, nesse futebol de hoje tão físico, onde não segurar muito a bola é mandamento, desenhar um lance que favoreça o drible pode beirar a desobediência. 



Imagino que muito provavelmente não há castigo maior para um driblador do que se ver vitimado pelo veneno que ele costuma inocular em suas vítimas. A história dá pistas de que esse gesto - que até os dicionários parecem ter certa dificuldade para definir - abriu as portas da realeza para muitos. Mas só os verdadeiramente nobres foram capazes de dispensar ao drible o tratamento devido. Estando eles no papel de executores ou de executados. É famosa a história do primeiro treino que Garrincha fez no Botafogo em junho de 1953. Escalado na ponta-direita pelo técnico Gentil Cardoso, o novato que ainda não tinha completado vinte anos de idade, não tomou conhecimento do lateral esquerdo que estava ali para marcá-lo. O lendário Nilton Santos, jogador da seleção. 

No primeiro lance, pra se livrar da tentativa do desarme, Garrincha o driblou pra fora. Nilton Santos, então, teria corrido atrás dele e, uma vez lado a lado, viu o garoto parar bruscamente e lhe aplicar outro drible parecido, mesmo que dessa vez a tentativa de lhe tirar a bola tenha sido mais veemente. E não foi tudo. Apesar de Nilton Santos ter levado a melhor em algumas situações, acabou tomando uma bola entra as pernas. Algo que, dizem, Nilton Santos jamais tinha permitido a ninguém.  Depois do treino, os dirigentes do Botafogo, ainda que loucos para fazer o garoto assinar qualquer papel, claro, foram consultar Nilton Santos, que definiu o jovem como um monstro. E afirmou que precisavam contratá-lo. É melhor ele conosco, do que contra nós, sentenciou o lateral-esquerdo, tido como o melhor de todos os tempos. Mas muitos dos entendidos que andei ouvindo nas últimas horas preferem dizer que desavenças do tipo são normais. Vejam, uma coisa é se desentender. Outra, bem diferente, é culpar o drible. O drible não tem culpa. 

 

quinta-feira, 30 de abril de 2026

O fantasma das lesões



A maneira que a crônica esportiva tem de tratar o futebol em linhas gerais não costuma primar pelo humanismo. Ainda que o amparo no conhecimento científico esteja mais presente do que nunca. Tão presente que acho que seria prudente que os interessados no tema pudessem entender melhor tudo o que anda balizando os corpos clínicos dos clubes na tentativa de mitigar os danos causados por esforços físicos cada vez maiores. Afinal,  quando um jogador deixa de ser escalado sempre fica no ar a impressão de que se tratou de uma escolha e não de uma constatação. Uma vez que, segundo os especialistas, os exames a tudo esclarecem. O que alia lógica e saber científico, coisas que ajudaram a criar o pensamento que nos tirou da idade média e nos levou mais tarde a era moderna. 

E talvez resida aí a grande dificuldade para que a interpretação do jogo e de tudo que o envolve se dê de maneira mais humana. Há sobre ele uma crença que impede que o científico se imponha. E isso me faz lembrar uma expressão que, mesmo antiga, está longe de cair em desuso: jogar no sacrifício. E com ela está posta a possibilidade de que se conteste o que os laboratórios permitiram ver. Difícil não aceitar que não é preciso estar fisicamente cem por cento pra jogar. Mas a partir disso tudo fica meio nebuloso. E enveredamos por um caminho onde as bases passam a ser tão abstratas quanto a das religiões. De quem não contesto o nobre papel, mas que me sinto obrigado a dizer que precisaram ser dribladas um tanto para que o humanismo viesse a florescer. 



E se digo que o futebol não costuma primar pelo que aquele movimento propunha é porque a crônica esportiva em muitas situações está longe tratar o homem com o cuidado devido. Ainda que o deixe tanto no centro das reflexões que a coisa facilmente acaba descambando pro pessoal e pra fofoca. E as lesões que andam aí frequentando manchetes quase diariamente, que podem tirar o jovem Estevão da próxima Copa, que acabamos de saber impossibilitaram a ida ao mundial do zagueiro Eder Militão, todas elas são retratadas com certa frieza. Em geral, viram notícia no primeiro e nos últimos capítulos. Mas o drama que trazem consigo raramente é lembrado. E a dor tem sido desde sempre companheira de quase todo atleta de alto rendimento. 

Imagino que devam estar parecendo eternos os meses que o atacante Paulinho, do Palmeiras, tem sido obrigado a ficar longe dos gramados. E a realidade que o aguarda é conhecida. Quem se recupera não tarda e será cobrado para mostrar em campo que está apto a exibir o vigor dos heróis. O técnico Fernando Diniz, de perfil tão humanista, dias atrás deu uma declaração que vale a pena ser resgatada aqui. Não desacreditou o que vem dos laboratórios, mas afirmou que um atleta não é só músculos e ossos, ao ser questionado sobre o modo como iria gerir o elenco corintiano. 

Seja como for, as lesões - que parecem nos assombrar nestes dias - deveriam ser tema mais estudado. Para elucidar o que o futebol tem virado do ponto de visto físico. Para elucidar o tamanho dos danos causados por esses calendários draconianos impostos aos atletas. Realidade que esse momento torna muito evidente. Na última Copa, a França, por causa de lesões, teve seu elenco devastado. Ficou sem vários jogadores. Entre eles Benzema, na época o atual melhor do mundo. Ficou também sem Pogba, sem Kanté. Outros nomes viveram o mesmo. O argentino, Lo Celso. O alemão, Marco Reus. O senegalês, Sadio Mané.  Enfim, escolhi o tema por que voltamos a viver esse tempo em que uma lesão se faz imensamente maior do que algo que simplesmente provoca ausências